28 de abril de 2012

A criação do mundo - versão acadêmica


a criação do homem, na versão acadêmica

No princípio, era o verbo-orientador. E a terra era sem forma e vazia. Aí, o verbo-orientador disse: "deus, meu orientando, crie o mundo. Terás 30 dias para isso. Sem bolsa". Deus, no início, apesar de ter que criar o mundo na base da caridade, achou a idéia boa - afinal, tudo estava tão vazio, tão sem sentido; ele vinha se perguntando sobre seu papel na existência e sobre como poderia contribuir para que o mundo que criaria, pudesse ser um bom lugar - e começou a planejar. Porém, antes mesmo de criar o mundo, deus deu existência à pior de suas criações: a procrastinação. Enrolava e se lastimava a todo momento sobre o quão difícil seria criar o mundo, sobre o quão apertado era o prazo, sobre não ter bolsa pra desenvolver o trabalho, sobre a arbitrariedade do seu verbo-orientador, essas coisas todas que movem as engrenagens procrastinatórias até hoje. Como nem deus é de ferro, também passava boa parte do tempo no Facebook e tuitando.
Fato é que deus, sofria de arritimias, insônia e descargas de adrenalina. Certo momento, do nada, conseguiu romper o bloqueio criativo e a apenas sete dias do prazo final, iniciou os trabalhos. Como deus é "o cara", concluiu a criação em seis dias. Com o mundo em mãos, ligou para o revisor: "revisor, preciso que você revise meu trabalho para amanhã, meu dead line". O revisor, cansado desses acadêmicos apressados, falou: "deus, nem f….! Impossível, não tenho como revisar um trabalho tão grande em tão pouco tempo!" Deus então, no ápice do desespero, mandou um email de socorro para o verbo-orientador, que respondeu dizendo não poder revisar o trabalho, pois andava ocupado com a organização do Primeiro Congresso de Criadores Culturalistas, coisa "mais importante". De mãos atadas, sem ter o que fazer, o intrépido criador adotou a máxima "o que não tem remédio, remediado está": mandou o mundo para a [calma, leitor], para a banca, sem revisão. 
Leve, livre e solto, tirou a manhã do sétimo dia para o Facebook, dolorosamente não atualizado desde o início da criação. Postou (e tuitou): "VEEEM GENTY LYMDA! ;) - acabei de criar o mundo, vamos comemorar!" Entre os elementos da criação, lembrou deus, estavam a pizza e a cerveja. Achou que era um bom momento pra juntar as duas. Isolado em uma cidade universitária, e sem transporte, nos 46 do segundo tempo criou o disk-entrega (essa última criação seria posteriormente inserida na versão definitiva do mundo, depois da defesa), pediu para entregarem, a gente linda chegou. Deus tirou o resto do sétimo dia para comemorar e descansar, necessariamente nesta ordem.
Ele e o mundo foram aprovados com o conceito "bom", afinal, ainda que cheio de sérios problemas teóricos, de método e erros de ortografia, "o mundo" era um trabalho original. As consequências da falta de revisão nesse trabalho estão aí até hoje para nos lembrar que dentre outras coisas, a procrastinação é inimiga da perfeição. E que a perfeição, não foi alcançada nem mesmo por deus. Então, não sofra em excesso com seu maior trabalho. No desespero, pare tudo, peça umas pizzas, compre umas cervejas, chame os amigos e relaxe. Só não peça ajuda a deus. Desde então, ele anda meio traumatizado com essas coisas da academia.


25 de outubro de 2011

Urgente


É preciso avisar toda a gente
Dar notícia informar prevenir
Que por cada flor estrangulada
Há milhões de sementes a florir

É preciso avisar toda a gente
Segredar a palavra e a senha
Engrossando a verdade corrente
De uma força que nada detenha

É preciso avisar toda a gente
Que há fogo no meio da floresta
E que os mortos apontam em frente
O caminho da esperança que resta

É preciso avisar toda a gente
Transmitir este morse de dores
É preciso imperioso e urgente
Mais flores mais flores mais flores

João Apolinário

(1924-1988)


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19 de setembro de 2011



Tanta ilusão,
quanta ilusão...

E o que importa
são as paineiras
que marcam o que resta a perceber
nesta sobra de inverno,

com seu algodão.

Então,
então.


9 de agosto de 2011

De onde vem essas luvas azuis?

O garotinho tinha cinco anos e entrou na sala meio cambaleando, bastante desconfiado, medindo tudo com os olhos. Tinha razão, afinal, em um hospital todas as salas são pra se colocar também, um pouco de desconfiança, elas contém seringas, agulhas, injeções, coisas demais que crianças não gostam. O pequeno ainda vestia o pijama. A mãe, logo se defendeu:


- É muito preguiçoso pra acordar! Estávamos atrasados, preferi não trocar de roupa…


Eu disse que tudo bem, conversamos e distraí o garotinho como de costume. Ele estava lá para fazer um teste bastante simples, onde é preciso fazer uma micro incisão no antebraço - 5mm de comprimento por 2mm de profundidade. Como eu mentia (quase sem precisar), "uma picadinha de formiga".


Vesti o par de luvas descartáveis. Eu usava luvas especiais, anti-alérgicas. Essas eram azuis, e claro, despertaram a curiosidade do garoto:


-Azuis! Elas são azuis!!!


Confirmei, "sim, azuis!", e pronto, uma vez confirmado, poderia ter parado por ali. Mas não, continuei e tentei colocar as luvas e toda aquela situação no plano da fantasia. Então, perguntei pra ele,


-E você sabe de onde elas vem???


Esse foi momento em que eu, além de querer criar o mundo da fantasia, também perdi a medida do tempo e esqueci que pelo menos, 20 anos nos separaram.


-Não!!! De onde elas vem??? - ele perguntou, assim mesmo, bastante eufórico.


-Elas vem lá da terra dos Smurfs! - disse eu.




[Silêncio]

Se estivessem por ali, ouviríamos o som dos grilos.




No meu rosto, à espera de que ele relacionasse o azul das luvas ao azul dos Smurfs, estampava-se um grande sorriso; no dele, com o dobro do tamanho, uma interrogação.


Confesso, fiquei indignado. Como podia uma criança não saber quem são os Smurfs! Como poderia então, nunca ter cantado o "lá, lá, lá lá lá lá, lá, lá lá lá lá"? Não saber sobre o Gargamel e seu gato Cruel, a Smurfete! Como?


A mãe do garotinho percebendo o desconforto da situação se pôs mediadora:


-Então… [num tom bastante delicado, pra não me ofender], Os Smurfs são do nosso [olhando para mim] tempo né… Não do dele… ele tem só 5 anos!


O garoto continuou por alguns instantes com aquela interrogação estampada no rosto, que mal se desfez quando outra surgiu: quis saber então, como uma "formiguinha" - essa que logo mais o picaria - tinha entrado no dispositivo que faria a incisão em seu braço… Ele, como toda criança tem um mundo pra descobrir, não poderia perder mais tempo com luvas azuis da terra dos Smurfs.


Hoje, fui tomar um café no Café do cinema e vi o cartaz do filme dos pequenos azuis. Lembrei desse caso e ri sozinho. Se pudesse, levaria ele para assistir Os Smurfs. Aí então, ele descobriria de que mundo vieram aquelas luvas azuis…


(E tantas outras coisas que como os Smurfs, moram pra sempre na minha memória, naquele cantinho dos Verdes Anos.)






24 de julho de 2011

É divulgada a causa da morte de Amy Winehouse


De Londres


Os médicos do serviço legista da Scotland Yard divulgaram há pouco o resultado da necropsia do corpo da cantora Amy Winehouse, encontrada morta em seu flat em Camden na tarde de ontem (sábado, 23).

Como causa da morte foi apontado "choque fisiólogico" que teria "provocado uma parada cardio-respiratória, levando à falência múltipla dos órgãos". O choque, afirmaram os legistas, foi causado por uma situação psicológica conhecida como "inadequação social grave". Os portadores desta condição, considerada por médicos, psicólogos e psiquiatras um grande problema de saúde pública, problema esse que teria levado Machado de Assis a escrever o best-seller "O Alienista" em 1882 (CLIQUE AQUI PARA COMPAR "O ALIENISTA", DE MACHADO DE ASSIS), atinge cada vez mais seres humanos, principalmente jovens. De origem complexa, tal situação costuma levar seus portadores a adotarem hábitos auto-destrutivos, como o consumo de drogas, uma vez que percebem que não há maneira possível de conciliar suas idéias e necessidades com as do mundo em que vivem. No caso da cantora inglesa, os médicos ainda acrescentaram como fatores agravantes o assédio da imprensa e paparazzis à sua conturbada vida e sua consequente exploração midiática. Devido ao ocorrido, o serviço de saúde pública inglês promoverá nas próximas semanas uma campanha de adequação psico-moral entre os jovens que apresentarem os sintomas desta grave doença.

O corpo da cantora Amy Winehouse será cremado na manhã de segunda-feira. Haverá transmissão da cerimônia ao vivo pela BBC e os assinantes do sistema de pay-per-view da rede poderão acompanhar com exclusividade a cerimônia íntima, dedicada aos parentes e amigos e que acontecerá antes da cerimônia pública (CLIQUE AQUI PARA ASSINAR O PAY-PER-VIEW DA BBC).



Sucesso


Há planos também para o relançamento do álbum Back to Black (2006), bem como de uma série de DVDs com apresentações da cantora pelo mundo, alem do projeto Amy=Fail, um conjunto de vídeos de apresentações fracassadas da cantora. A Mattel, pretende colocar no mercado ainda para o natal deste ano a Barbie Winehouse, uma boneca Barbie morena e que deverá vir acompanhada com um copo de vodka na mão. A Barbie Winehouse ainda contará com um dispositivo de fala, que dirá versos de músicas de Amy, como "What kind of fuckery is this" e "You know I'm no good".

Ainda sob o peso do luto, a gravadora da cantora informou que havia instalado câmeras em sua casa para monitorar o seu compartamento, o que vinha causando repetitivos prejuízos à companhia. Prometem, sem edição, lançar ainda neste trimestre, todo o material gravado na forma de um reality-show, provisoriamente intitulado "REHAB: Amy's Real Li[v]e".



Os especialistas falam


A geneticista brasileira Maryanna Zasttz, da Universidade de São Paulo, foi procurada pela redação para falar sobre a doença que teria causado a morte de Amy Winehouse. Segundo ela, "não há evidências científicas suficientes para atribuir a morte de Winehouse a um distúrbio patológico social; Maryanna afirma que "pelo contrário, acreditamos cada vez mais que o consumo de drogas e de álcool, bem como a adoção de hábitos de vida desregrados e imorais" afetam os genes e no caso, teriam "afetado os genes de Winehouse, levando a cantora a um quadro irreversível de degeneração fisiológica", que culminou em sua morte. "Era evidente que isso aconteceria. Ela se recusou ao REHAB. Continuou bebendo, fumando até crack! Procurou a morte, desde o início". Maryanna Zasttz, disse ainda ser grande fã do trabalho de Amy e que aguarda ansiosamente pelo lançamento do reality show "REHAB: Amy's Real Li[v]e".



6 de julho de 2011

Sobre fazer robôs

Que sei eu do que serei, eu que não sei o que sou?
Ser o que penso? Mas penso ser tanta coisa!
E há tantos que pensam ser a mesma coisa que não pode haver tantos.

Álvaro de Campos, Tabacaria


Quando criança, afoito por antes mesmo de crescer decidir o que ser (coisa de criança de cidade grande), um dia após desenhar um robô e me achar um engenheiro, perguntei ingenuamente para minha mãe se engenheiros apenas desenhavam os robôs. Na resposta minha mãe me ofereceu uma pequena dose de realidade, dizendo que não, que os engenheiros não apenas desenhavam, mas projetavam todo o robô: da sua forma externa a cada uma de suas porcas parafusos, tudo passaria pelo engenho do engenheiro. Achei isso extremamente exaustivo e desestimulante, o fim do mundo. Resolvi então, que não queria mais ser um engenheiro.

Sim, ao abandonar o projeto do meu primeiro robô, com alguns anos de antecedência definitivamente vivi o fracasso com relação a números, medidas e cálculos que a partir da sexta série seria uma constante em minha vida escolar. Mas o que posso fazer se sempre me apeguei mais às linhas gerais, às formas das coisas, do que aos seus detalhes?

Duas décadas depois e com um substancial know-how em rascunhar milhares de robôs e concluir o projeto de apenas algumas dezenas, me vejo agora numa dessas situações limite que clareiam o entendimento sobre toda uma vida e fazem a gente entender pequenos eventos que ficaram lá na memória, como meu primeiro robô.

No exercício diário de escrever minha dissertação de mestrado, o que posso dizer tranquilamente que é o meu atual trabalho - e no literal entendimento da palavra -, vejo à minha frente milhares de porcas, parafusos, conectores, fios, plugues, toda uma sorte de coisas que preciso juntar cada uma no seu lugar certo, para fazer com que meu robô mais especial abra os olhos. Escrever uma dissertação é um trabalho de muito engenho também. Neste sentido, por mais que eu tenha fugido dos números e cálculos (e depois dos papéis, das bancadas…), me vejo agora nessa oficina das palavras onde dia após dia, tento trazer à vida esse mundo de pecinhas soltas. Esta é uma engenharia muito especial: não de números, mas de palavras e idéias.

Para aquela dúvida, "o que ser quando crescer", ainda que tudo indique que já cresci, não tenho resposta. E já não sei se quero uma: acho que desisti de ser algo, justamente quando cresci. Resolvi foi construir robôs, dos mais variados: textuais, imagéticos, psicodélicos, ideológicos, poéticos, musicais. Parece, resolvi antes estar do que ser.

Aliás, sim, há uma escolha nisso tudo! Escolhi sempre me perder entre novas porcas e novos parafusos, que inexperimentados me mostram outras possibilidades de novos robôs. Eu não cresci para escolher o que ser. Eu cresci para escolher diariamente o que fazer. E assim, deixo o tempo me levar.

o simpático robô Wall-E

15 de dezembro de 2010

All things must pass

Encare todos os problemas, resolva um a um. Não adiante e não atrase nada: sofra somente o necessário, ao seu tempo. Peça ajuda aos amigos, não esqueça da família. Chore, se for o caso. Ouça músicas, corra, relaxe. Durante o sono, seja você e o travesseiro, durma. Mais um problema? Eles são assim, chegam em lotes. Respire fundo, as pernas existem também pra não lhe deixar cair, mas se quiser, caia. Levante. "All things must pass away".

12 de dezembro de 2010

Sobre o prazo de validade das coisas

Lê sempre os rótulos. Procura entender do que as coisas são feitas, detalhadamente. De sabonetes a geléias, procura por ingredientes condenáveis, pelo local de fabricação, se longe, se perto, se distrai: levar algo pra casa é tarefa difícil; gosta de ler sobre dados nutricionais, quantidades de calorias, vitaminas, carboidratos. Não que se preocupe com o engordar ou emagrecer do corpo, mas o que coloca pra dentro, lhe interessa. Compara: um em cada mão, troca informações com seus lados direito e esquerdo, escolhe, desiste, vai embora. Lê sempre os olhares, procura entender as mentes, procura encontrar o prazo de validade em tudo, sabe que tudo um dia vence: de barras de cereais a relacionamentos. Nada vencido põe pra dentro. Nada, ainda que mais barato. Pensa, "que fiquem as coisas vencidas pros lados de fora". Porque tudo, insiste, um dia vence. E há sempre um grande perigo em por pra dentro algo vencido, bactérias, fermentação, traição. Tudo vencido tem cheiro ruim, faz mal, faz chorar.
Tudo vence um dia. Tudo vence num dia, num outro dia, vence-se tudo. É uma escolha, ser vencido, vencer.

8 de dezembro de 2010

O bom-dia e a estética-do-viver

Diariamente oferece alguns bons-dias sem esperar muito em troca. Não que tenha se acostumado à tradicional falta de humor que as pessoas tornam-se em grandes cidades, também pudera, são buzinas, fumaças, sirenes e trombadas já pela manhã, mas porque tem a continua impressão de que as pessoas, aqueles conhecidos (não os amigos, aqueles outros, que se veem diariamente e por causa disso mesmo, dessa repetição diária de contato visual sem maiores expectativas, tem suas caras umas gravadas nas mentes das outras), não se reconhecem. Não sabe explicar de onde vem essa sensação, o que sabe, é que não repondem ao cumprimento o que muitas vezes, faz com que ele mesmo, não dê partida à cortesia.

E hoje, que surpresa. Ao descer do ônibus, depois de um saldo de cinquenta por cento de sucesso nos bons-dias até então oferecidos, sendo o motorista o responsável pela metade perdida e o cobrador o responsável pela metade ganha, eis que desce e aproxima-se da barraquinha da moça que vende café na calçada do hospital, prepara-se para o próximo bom-dia quando percebe, ela, num movimento rápido, antes das palavras saltarem da sua boca, abre o pote onde ficam os copos plásticos em que serve o café, saca um, posiciona-o abaixo da saída da garrafa e aciona o sistema de vácuo que faz-lo jorrar. Ela serve o café, bom-dia, ele diz. O bom-dia saiu assim, chocho, pois do espanto, não foi um desses bons-dias, do tipo "bom-dia!!!", foi um bom-dia do tipo "bom-dia…", e foi mesmo assim desconfiado e com reticências, porque antes de dizer o que queria, antes do bom-dia deixar de ser intenção e ser um bom-dia de fato, ela já tinha servido o quente e necessário cafézinho (e é importante saber, ela não vendia só café, haviam ali bolos variados, doces, leite e o brasileiríssimo, digo mineiríssimo, pão de queijo, poderia ele escolher qualquer uma dessas quitandas, como se diz lá em Minas, mas não, sabia ela que ele queria era o café, só o café, e esse de um real, porque tem também ali na barraquinha o de cinquenta centavos, metade do volume, o que não provê cafeína nem para passar o sono, menos ainda para as leituras densas e empoeiradas que tem feito), o que vem provar que, a moça se lembrava dele, de todas as outras vezes em que ele tinha por ali passado, de todos os outros bons-dias que havia dado e de todos os outros cafés de um real que havia comprado. Isso o fez pensar, que também talvez, todas aquelas pessoas conhecidas, não os amigos, os outros do caminho, e de diversos outros caminhos, porque o que mais temos na vida são caminhos e pessoas percorridos diariamente, também se lembrem dele, do mesmo jeito que ele se lembra delas, o que causa maior inquietação porque patente fica que ambos dão-se ao mesmo desagradável hábito: não se bom-diam-se, porque pensam, não lembram-se um do outro.

Essa sensação foi confirmada, após ela responder o bom-dia alegremente, não um "bom-dia…", mas um "bom-dia!!!". Ela só não se lembrou que o café que ele bebe, é sem açúcar (também pudera, não se pode lembrar de tudo a todo momento nessa vida), se fosse uísque, seria do tipo "cowboy", mas é café, só água muito quente e café, puro. Quando ela aproximou a colher do pote do doce e branco ganulado, foi lembrada: "o meu é sem açúcar", ele disse, espanto novamente, disse a moça: "ah! verdade, sem açúcar, sempre esqueço que o seu é sem açúcar, igual o do meu marido, do meu irmão, eles também bebem assim, como você, sem açúcar…" (vejam só, ele de repente, na mesma sentença que seus parentes mais íntimos, o filho da sogra e o outro filho da mãe, e ele, sabe-se lá filho de quem, ligados por essa preferência da amarguez do café, o que vem mostrar também que sim, ela se lembrou dele, afinal, não iria colocá-lo na mesma categoria de preferências amarguísticas que seus familiares se fosse um total estranho. É preciso mínima intimidade para adentrar um lar. Esse "sempre", foi confirmar: ela sabe quem ele é, não exatamente quem ele é no sentido de saber onde e de que corpos nascera, de onde vem, se é de deus ou do diabo, o que faz, se gosta de mulher, de homem, ou dos dois, se é casado e tem filhos, se gosta de futebol, e sendo sim a resposta, se torce pro Corinthians, Palmeiras ou São Paulo, sendo não, "que estranho, não gostar de futebol", essas coisas que todo mundo gosta de saber sobre tudo mundo. Sabe ela, quem ele é, porque ele é diariamente, aquele que desce do ônibus vermelho, vira a esquina e pede um café de um real (sem açúcar). Aquele que dá um bom-dia, sem muito esperar em troca. Talvez desconfiado, talvez medroso, talvez confuso, talvez ela pense “que raios de bom-dia é esse”, diariamente confuso, por antes estar medroso, desconfiado, com o que não sabe, com a vida talvez, essas coisas metafísicas e existenciais, por que não psicológicas, que tiram o sossego de qualquer um humano.

Mas hoje sobrou um pouco de clareza, da certeza, de que a confusão talvez nem exista de fato, ou pelo menos, diferente de existir, assim, substancialmente existência, seria mais algo que se faz questão de manter, como essas linhas penduradas nas barras ou mangas das camisas, que um puxão com pouca força já dá conta de resolver a questão estética e pendente. Entrou no parque, continuou a leitura do romance enquanto terminava o café de um real puro (puro o café, não o real, porque todo dinheiro é sujo, se não na sujeira que das mãos passam ao papel ou ao metal da moeda, na sujeira de ser mesmo dinheiro em si) com a certeza de que amanhã se tudo der certo, pelo menos um bom-dia sabe que ouvirá, um "bom-dia!!!", não um "bom-dia…", com o que, abraçará a moça do café, dirá ter sentido saudades, menos, o “bom-dia!!!” em resposta basta.

É preciso coragem para dar um bom-dia, porque cada bom-dia por simples que pareça é invasão, é um enfrentamento; é preciso coragem para responder a um bom-dia, porque cada bom-dia respondido, é um doar-se, é deixar ir um pouco de si e aceitar um teco do outro. É troca e como troca é, será também, se sucesso tiver a empreitada, uma dádiva, pra encerrar a coisa assim com um tom de antropologia. E como servir um café antes do bom-dia sair, põe tantas engrenagens mentais, simbólicas, psicológicas e metafísicas a se engrenarem e roçarem-se umas nas outras, ele já tem uma lição desse dia, se fosse um daqueles contos infantis, a tal da “moral da história” seria, puxar com mais força e coragem e quebrar essas linhas, coisas penduradas, linhas-coisas-penduradas escreveria o Latour, pois gosta dos hífens como ninguém, que talvez nem existam mas estragam a estética-do-viver.


25 de julho de 2010

Por um pouco de razão

Tem dias que a gente acorda sentindo uma falta terrível de algo que nunca existiu. É uma saudade sem fundamento, como sentir falta de algo que nunca aconteceu? Não é racional.
Como tantas outras coisas não o são. É mais desejo que saudade.
A razão é traiçoeira, te engana, dá rasteira; e quando você vê, é o chão. É sua cara no chão. É você e o limite, um de frente pro outro e ele te olha e diz:
- Vai, se entrega. Pensou que seria fácil?
Aí, umas músicas, umas bebidas e a rotina -com a promessa de auto-controle.
Logo você está de pé. E como a razão sempre é traiçoeira, pronto pra cair de novo.